Esse mês faz um ano. É claro que receber a notícia de sua morte não foi nada fácil pra mim, não esperava. Tava tudo tão normal... Eu lembro de você me chamando de "Mariana cara de mexerica", lembro de você implicando comigo e todo mundo brigando com você, mas eu só pedia pra você parar. Vinte e tantos anos de idade física, e na idade mental, eu já tinha passado de você. A deficiência sempre esteve no meu coração, não em você, que era tão cheio de vida e parecia tão mais feliz que qualquer um. Você foi livre o tempo inteiro. Você era um anjo, Rodrigo, mas nem todo mundo soube te ver assim. Eu lembro de quando eu te vi no sofá, dando crise: língua enrolando, corpo tremendo, olhos virando... Eu não pude fazer nada. Mas você resistiu a isso. Eu lembro que a gente brincava que era irmão, eu lembro de quase tudo. Hoje vejo sua mãe mais morta que você, seu pai se "trancou"... E eu não consigo falar disso com ninguém, muito menos com seus pais. E o seu medo era de que eles morressem antes de você. Aqui em casa, vivem como se nada tivesse acontecido... Eu que não sou dona de tanto cinismo. Me arrancou um belo pedaço de vida. Primeiro a Nathalia, depois você e depois outros e mais outros. Mas você era o meu irmão...
Me fechei na minha bolha, e tem muito tempo que a saudade me consome.
Meu coração está dormente, sou feita de lágrimas, não me rendo a palavras ditas.
