É, coisa chata. É seu aniversário. Nunca gostei de você e sempre fiz questão de deixar isso claro. Mas, me entenda... Eu já tinha um irmão, meu irmão Dudu. Pra que eu ia querer mais? Já me divertia colocando ele no balde cheio de água, vestindo de boneca e ele não falava nada pra minha mãe.
Ai, minha mãe vai me buscar na escola e diz que eu ganhei um presente. Pensei logo naqueles brinquedos toscos que ninguém nunca nem me perguntou se eu queria. Grande equívoco. O presente era você, uma irmã. Na hora em que ela disse, fingi até que era brincadeira. Não queria acreditar. Mas era verdade.
Sempre tive nojo de criança, mas você conseguiu ser uma das mais feias que eu já vi. Você era uma mistura de rato com esquilo e ainda tinha catapora. Era um monstrinho prematuro. Não pegava você no colo com medo de te quebrar.
Você cresceu um pouquinho, quis pagar de boa filha, de engraçada e os meus ciúmes só pioraram as coisas. O pai sempre foi meu, minha mãe era do Dudu. Não tinha ninguém pra você. Mas quem ficou sem ninguém fui eu. Depois, você foi dormir no meu quarto e nem durou muito porque eu não te aguentava. Eu nunca soube muito bem sobre nós duas. Eu não gosto de você, mas eu me preocupo demais. Eu adoro quando vejo que você tem muito medo de mim, mas eu sinto que você é meio sozinha, ninguém brinca com você. Mas também você é um porre, convenhamos.
É seu aniversário, não sei quantos anos você tá fazendo. Um dia, quem sabe, a gente vira amiga e ri disso tudo. Vai ver que um dia eu aprenda a gostar de você, não implique tanto. Um dia você descobre que eu escrevo esses textos ridículos aqui e até fique feliz por saber que lembrei do seu aniversário e fiz alguma coisa pra você. Ou talvez nem goste tanto assim, mas é o que eu posso fazer. Qualquer coisa, eu acabo te mostrando mesmo, e nada de cinismo pra cima de mim. Você é meu monstrinho. Eu posso te fazer mal, outra pessoa não tem esse direito.
